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Um copo de amargura na mesa, as mãos cruzadas por trás da cabeça ou agitadas pelo vazio que lhes deu desordem.. e nenhum de nós duvida do pensamento que então nos invadia a planura: " Ninguém me pode compreender. Hoje, à saída das aulas ou do trabalho, ele(a) já não quis saber de mim e eu sofro. Estou só. ". Claro que me refiro desde a maturidade à juventude actual! Como desde dos príncipes do borbulhante adolescente que, também a mim, me deram a honra de ter dezasseis anos ao mesmo tempo que eu, à perseguidora e martirizante sensatez que hoje teima em me seduzir o conceito. Basta dizer que desde que apareceram as famosas dedicatórias em programas radiofónicos, deixam-se de escrever cartas às namoradas ou namorados, atribuindo a um determinado artista (tema ou faixa do seu trabalho) a delicada tarefa de porta-voz. Em determinadas alturas todo(a)s precisamos denunciar e dar corpo à nossa (in)felicidade.
No fundo, iluminam-se os corações próximos com palavras confeccionadas por desconhecidos e servidas à distância.
Não desprezando o fluido musical (composição), conferindo-lhe, não uma espécie de suporte da mensagem, mas a sua própria seiva, essas obras aparecem manietadas a textos destinados a exorcizar soberanamente a dor ou o prazer do(a) ouvinte.
A minha profunda admiração e afectividade/amizade parante a comunidade musical não é secreta, conferindo-lhe até uma privilegiada assistência.. seguramente por esta ter assumido, naturalmente, uma inesperada e, insólita em muitos casos, activa complicidade no meu desenvolvimento desde o misantropo percurso entre as garras da adolescência académica.

O fogo da ribalta, quando luz violenta, esconde frequentemente a lamparina, muitas vezes discreta e frágil, subemetida a uma irreprimível necessidade de solidão/escuridão. Motivos desta minha ligeira homenagem em detrimento de algumas amizades também elas sinfónicas - fontes da bruma que jorram com toda a força ecos recalcitrados no seio de uma sociedade feita de simulacros e de enganos que não ousa (ou não sabe) murmurar.
Não, estas não são de dar o "corpo ao manifesto", mas são certamente as que acabam mais despidas após um espectáculo e/ou apresentação.
Há supostos " letristas "(autores) que embarcam numa partitura um punhado de galopantes palavras fustigadas pela falta de emoção e conteúdo, atreladas única e exclusivamente à receita da rima, fracturando uma composição excelente! O contrário não é menos frequente, e salva-se uma obra colocando uma sublime "gravata" sobre umas notas atiradas ao acaso. Não obstante, há-os também - e é uma maioria - que parecem proletários escravos das palavras que lhes saiem da boca, dominados por um verbo que os tritura, tolhidos em ritmos que não dominam e desconsertados por uma melodia que os despreza soberanamente. Gente em consonância com os seus estados de alma com as quais vai alimentando as suas insónias sentimentais. Domesticar correctamente um tema instrumental com a frase certa é saber escutar o uivo do nosso silêncio.



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